A delícia em se ter uma irmandade travesti

Texto de Ana Flor para as Blogueiras Feministas.

Talvez esse seja um dos melhores textos do qual tive o prazer de escrever. Principalmente por conceber o quão nossas novas gerações de travestis estão empenhadas em ressiginifcar o conceito de irmandade. Algo que me toma de amor. No mais profundo sentido da palavra. Termos o direito de amarmos umas as outras é perceber que estamos sendo humanizadas em um espaço-tempo que nunca desejou esse feito.

Assim sendo, não é preciso muito para identificar que historicamente fomos construídas dentro de uma rivalidade que nos afundou no campo da solidão. Encontrar-se sozinha era sinônimo de travesti. Infelicidade tornou-se, durante décadas, uma rotina. Tesouras e giletes desfilavam em nossos corpos como demarcação de território sagrado e campo minado. Distância tornava uma esquina segura. Mudar o lado era regra. Afinal, perigo. Em outras palavras: desafeto. Construção social do projeto de desumanização do direito de ser e viver travesti.

Aproveito para abrir um parêntese e destacar como não desconsidero que nossas mais velhas traçaram rotas de fugas para permanecer juntas e seguras, mas sim que tento apontar como estamos, hoje, concretizando o que no passado, talvez, fosse uma exceção: o amor. E não apenas o “amor”, mas o amor travesti.

Construir redes de afeto nos possibilita crescer. É absurdamente lindo como Liniker e Linn nos permitem visualizar uma felicidade travesti. Digo isso, pois acredito que as meninas também devem ter recebido o convite compulsório da prostituição, uma vez que estamos no Brasil, o país que se orgulha em nos submeter a essa profissão como se outras não fossem possíveis.

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Feminismo pra quê?

Texto de Marília Cairo para as Blogueiras Feministas.

Ser mulher por si só remete a muitos rótulos. Esperar que a mulher atenda à padrões estéticos que não a representam, ou que assuma quase que integralmente a educação dos filhos são exemplos corriqueiros. É como uma promessa, como se alguns padrões já estivessem definidos no nosso DNA. Se é mulher, logo…

Mas, no universo de mulheres possíveis, que conquistaram o direito de decidir por si próprias, cabem muitos perfis. Dona de casa. Mãe. Sim. Mas também empreendedora, chefe de família, solteira por opção, e mais o que vier. Mulheres que os antigos modelos já não dão conta mais.

No entanto é fácil ver que, apesar do legado deixado pelas lutas sociais femininas, apesar das suas próprias batalhas pessoais, muitas mulheres ainda se desdobram para atender às pesadas expectativas sociais. É lugar comum falar do sentimento de culpa que acompanha a liberdade de decidir. Seja a culpa por trabalhar e não poder estar com os filhos em tempo integral ou, na contramão, a culpa por priorizar a família, deixando de lado importantes metas individuais.

Uma melhor qualidade de vida da mulher implica na tomada de consciência do seu próprio direito legítimo de escolher, e também na formação de uma estrutura social que acompanhe as conquistas femininas, passando pela igualdade de oportunidades de trabalho e de salários, e pelo compartilhamento de responsabilidades no seio familiar. Então quem sabe poderemos ver relações mais equilibradas e saudáveis para homens e mulheres.

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Um fórum, muitas janelas abertas à igualdade de gênero

Texto de Fernanda Favaro para as Blogueiras Feministas.

Estocolmo sediou em abril um encontro mundial sobre igualdade de gênero: The Stockholm Forum on Gender Equality. O evento contou com presença de cerca de 600 especialistas de institutos de pesquisa, departamentos da ONU, organizações sociais, movimentos de mulheres e coletivos feministas, pesquisadores e jornalistas de mais de 100 países. A iniciativa de agências e governo sueco inaugurou um movimento de convergência de ideias sobre a implementação da Agenda 2030 a partir da perspectiva da garantia de igualdade de gênero – ela mesma um dos “novos” objetivos do milênio.

Participei do encontro como blogueira feminista a convite do Swedish Institute, uma agência pública que cria pontes entre a Suécia e outros países em várias áreas. Como brasileira e “nova sueca”, propus a mim mesma uma dupla tarefa: coletar ideias interessantes para o debate feminista e de gênero no Brasil, e refletir sobre minha posição, como mulher do Sul Global, em relação aos avanços e retrocessos da luta de mulheres no mundo. Uma “missão paralela” teve a ver com o minha pesquisa de mestrado sobre feminismo e empreendedorismo materno, por isso centrei foco nas mesas em que foram debatidos temas como: justiça financeira, empoderamento econômico e reconhecimento político e institucional do trabalho doméstico e da cuidadora.

Considero um privilégio viver a experiência de morar num país capaz de ensinar tanto sobre perspectivas feministas até então desconhecidas para mim. Para começar, estar aqui é viver na própria pele a dupla discriminação por ser mulher e carregar outra etnia e origem, com seus conhecidos desenvolvimentos em termos de exclusão do mercado de trabalho, pouca ou nenhuma legitimidade em diversos âmbitos, baixa representatividade e invisibilidade social. É ver nascer novos movimentos de resistência de feministas em regiões empobrecidas em nome de todas as mulheres que sofrem com o radicalismo religioso por um lado, e com o ódio neonazista por outro, tais como as corajosas mulheres do coletivo Förortfeminismen (Feminismo da Periferia). Mas também é usufruir da luta de feministas suecas históricas, como as incríveis mulheres do Grupp 8, por direitos que agora são de todas as mulheres que aqui habitam, entre eles o aborto descriminalizado e seguro, leis trabalhistas protetivas e antidiscriminatórias, creche gratuita e universal e uma ampla rede de proteção contra abuso e violência doméstica, apenas para citar alguns.

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